Se quiser investir, não cometa este erro…

No artigo anterior, procurei demonstrar, da forma mais simples possível, como começar a investir (e ser bem-sucedido) nos mercados financeiros. Como geralmente acontece com as explicações simples, ao concentrar-me na mensagem principal, ficaram por abordar alguns detalhes que, de outra forma, poderiam ser um complemento valioso para quem começa a dar os primeiros passos. Agora será então uma boa altura para responder à seguinte pergunta: se investir é simples, porque é que tantos investidores perdem dinheiro nos mercados financeiros, e como evitar cometer os mesmos erros?

Papel das emoções nos mercados

Se olharmos para a evolução do PIB das diferentes economias desenvolvidas, iremos perceber que ao longo das últimas décadas a tendência tem sido de claro crescimento. É sem surpresa então que, quando olhamos para os respetivos índices bolsistas nacionais, geralmente encontramos uma tendência igualmente positiva, uma vez que as empresas são o motor da economia. No entanto, é igualmente possível verificar uma outra tendência. Ao contrário da evolução do PIB em que, salvo períodos de crise, evolui de uma forma mais ou menos constante, os mercados financeiros apresentam maior volatilidade e são muito menos previsíveis.

Exemplo do S&P 500 (500 maiores empresas americanas) e PIB dos EUA (outros exemplos aqui)

Um pouco assustador o gráfico de cima, hein? Algumas razões que justificam um crescimento substancialmente acima da economia em que o índice se insere passam pela concentração de fundos dos diferentes cantos do mundo ou internacionalização das maiores empresas do índice e respetiva expansão para mercados de maior crescimento. No entanto, a principal razão por trás de tantos booms and busts passa pela natureza humana, e incapacidade do indivíduo em lidar com as suas emoções.

A tendência do mercado é inicialmente definida por razões fundamentais de ordem financeira/económica. Por um lado, quando a perspetiva futura é positiva, o mercado cresce. Inversamente, quando a perspetiva futura é negativa, o mercado contrai. No entanto, tal como acontece no mercado de Bitcoin, a tendência é que estes ciclos acabem por se acentuar devido à natureza humana: enquanto o mercado cresce, mais indivíduos e instituições tomam a iniciativa de investir no mercado. Isto resulta numa maior procura por ações, que leva ao aumento das cotações. Com o aumento das cotações, o mercado torna-se mais apelativo aos olhos de mais investidores, que tentam lucrar com o crescimento do mercado. Ao final de algum tempo, os investidores deixam de se guiar pelos fundamentos económicos e cria-se uma exuberância no mercado que o leva a crescer de forma exponencial.

Seja que tipo de investimento for, imobiliário, ouro ou ações, investir na expetativa de que haverá sempre alguém disposto a pagar mais é uma receita para o desastre. Eventualmente, uma série de circunstâncias negativas irá desencadear uma reação de vendas em cadeia, em que muitos querem vender e poucos estão dispostos a comprar. Nessa altura, é possível observar um comportamento inverso mas semelhante ao anterior: com os mercados em queda, todos os investidores procuram assegurar que minimizam o prejuízo da sua carteira de investimentos, chegando a vender empresas financeiramente sólidas por muito menos do que aquilo que elas valem. Assim, os mercados financeiros comportam-se como um pêndulo, alternando entre a exuberância e a depressão.

Porque falham tantos investidores

Fonte: JP Morgan

A imagem acima é bem ilustrativa do quão impreparado está o investidor médio para gerir a sua carteira de investimentos. Ao contrário do que à partida se possa pensar, as razões que justificam tão má performance não são de ordem técnica. Como já mencionei várias vezes, não é necessário saber avaliar empresas e ler demonstrações financeiras para ter uma carteira de investimentos rentável. Através de uma gestão passiva, basta assegurar que tem fundos de emergência para prever eventuais necessidades de liquidez, definir um horizonte temporal de investimento a longo-prazo e confiar na tendência de crescimento da economia mundial.

No entanto, a maioria dos investidores apresenta uma performance ridícula quando comparada com a performance da maioria das classes de ativos financeiros. Claro está, as emoções são o fator principal que justificam tão má performance – comprar quando o mercado está em alta e, por conseguinte, mais caro, e vender quando o mercado está em baixa, isto é, mais barato. É muito provável que o leitor tenha começado a ler este artigo como resultado de um entusiasmo crescente que se tem registado à volta do contexto que atravessamos, portanto poderá confirmar esta tese… Não estivéssemos nós a atravessar a maior fase expansionista da era moderna!

Performance bolsista das 500 maiores empresas dos EUA vs Nikola Motors

Desde a crise bancária de 2007 nos EUA e, sobretudo, desde a crise das dívidas soberanas de 2011/14 na Europa, o mercado de capitais tem sido marcado por um otimismo crescente. São cada vez mais os sinais de exuberância, perceptíveis através de alguns pequenos sinais que vão surgindo aqui e ali. Por exemplo, no gráfico em cima pode comparar a performance do mercado no último ano (16.76%) com a da empresa Nikola Motors, que foi lançada em bolsa entretanto (320.59%). Não conhece a empresa Nikola? Não é o único: esta é uma empresa que espera fabricar veículos movidos a hidrogénio, mas que ainda não produziu um único veículo nem apresentou qualquer tipo de receitas desde que foi fundada em 2014. Nada que os impeça de exibir uma capitalização bolsista de 17 mil milhões de dólares, valor semelhante à capitalização bolsista da “nossa” EDP!

Outros sinais como a Farfetch, que apesar de acumular prejuízos crescentes, é uma das empresas mais importantes no seu setor. Estes e outros casos são tipicamente explicados pelo enorme potencial disruptivo destas empresas nas suas áreas de atuação. E-Commerce, Fintech, Greentech, etc são os conceitos da moda, e ninguém discute a importância que terão num futuro próximo. O problema começa quando se deixa de olhar para os fundamentos económicos e financeiros por trás destas empresas e nos deixamos guiar apenas pela ideia do potencial.

No final de 1999 e inicio de 2000, o contexto de mercado era semelhante a este – a internet era o futuro, e não havia limite para o potencial que o online traria para os negócios. Após o consequente fim da bolha, os mercados como um todo não recuperaram até 2007 e as empresas da moda da altura que (não faliram) arrastaram-se durante algum tempo – a Microsoft só renovou máximos em 2016 (sem contar com dividendos) e a gigante da altura Cisco nunca mais atingiu o aquele nível.

Buy when there’s blood on the streets

Este foi o conselho deixado pelo Baron Rotschild, patriarca de uma das familias mais importantes da alta finança entre os séculos XVII e XX. Uma variante mais atual é o lema de Warren Buffett, um dos investidores mais bem sucedidos de sempre:

“Be fearful when others are greedy, and greedy when others are fearful.”

Por outras palavras, ter mais cautela quando os mercados renovam máximos históricos, e investir mais agressivamente quando todos os outros se tentam desfazer das suas ações. Tanto Warren Buffett como Howard Marks, dois dos meus investidores favoritos, fizeram boa parte da sua fortuna em 2000 (na bolha dot-com) e 2007 (grande crise financeira), quando aplicavam a sua liquidez no mercado enquanto todos os outros vendiam ao desbarato.

Charlie Munger e Warren Buffett – 1 000$ investidos Berkshire Hathaway em 1990 valeriam hoje cerca de 44 500$

Apesar desta ideia aparentemente maravilhosa de tentar lucrar através da temporização do mercado, posso desde já aconselhar a tirar o cavalinho da chuva. No curto-prazo, ninguém consegue prever com exatidão o que vai acontecer nos mercados. Nem eu, nem os investidores mais conceituados como o Ray Dalio ou Peter Lynch, que uma celebremente disse uma vez:

“Far more money has been lost by investors preparing for corrections, or trying to anticipate corrections, than has been lost in corrections themselves.”

Ou seja, esperar que o mercado derrape é meio caminho andado para deixar passar uma oportunidade para investir a preços razoáveis. Sendo verdade que os crashes da bolsa são inevitáveis, nunca saberemos com certeza se no próximo crash o mercado cairá para níveis inferiores aos que existem atualmente. Ademais, existe uma agravante psicológica que se prende com o facto de que a nossa paciência tem um limite. Por muito boa ideia que pareça aguardar por um tempo de entrada mais favorável, é muito complicado assistir de fora aos ganhos de mercado sem agir. O mais provável é acabar por entrar no mercado mais tarde ou mais cedo e, nessa altura, ter já deixado passar uma boa parte do potencial de valorização. Existe também o efeito contrário, que é também frequente e que tem a ver com o medo de entrar num mercado em queda.

DCA – Dollar Cost Averaging

Se investir num mercado em alta pode ser má ideia, e esperar por uma melhor altura pode ser também uma má ideia, o que fazer então?

Não havendo garantias nos mercados financeiros, a abordagem que traz melhores resultados a prazo é aquela a que os americanos chamam DCA, ou Dollar Cost Averaging. Esta abordagem pressupõe que o investidor não tenta temporizar o mercado, nem se deixa afetar pela fase do ciclo em que se encontra. Em vez disso, define à partida uma percentagem dos seus rendimentos que se destina a investir nos mercados com determinada regularidade. Religiosamente, esteja o mercado em alta ou em baixa, chegada a altura pré-definida, o capital é investido no mercado. Desde que o investimento seja feito para o médio ou longo-prazo, e tendo fundos de emergência para precaver quaisquer eventualidades, o investidor terá a confiança que ao final de alguns anos deverá registar uma taxa de rentabilidade bastante interessante!

Exemplo em dólares para evitar impacto do câmbio para euros

Na tabela acima, comparado dois tipos de investidores: o tipo 1 inclui investidores que investem no mercado quando este cresce e, com receio, deixam de investir quando o mercado cai, apenas retomando após recuperar as perdas da sua carteira; por outro lado, o tipo 2 investe independentemente da situação do mercado, sempre ao dia 1 de cada mês. Para efeitos de exemplo, usei o ano de 2020 até ao dia 14 de Agosto (final da semana passada) e assumi que ambos os investidores apenas começaram a investir no dia 1 de Janeiro de 2020.

2019 foi um ano com uma rentabilidade incrível, o que certamente terá aguçado o interesse de mais pessoas para começar a investir. Azar dos azares, no final de Fevereiro o mercado teve uma queda histórica, dada a evolução da pandemia Covid-19 e o congelamento mais ou menos transversal de todas as economias. Vejamos então como teria sido a performance do investidor mais cauteloso, que esperou pela retoma da economia para voltar a investir, e o investidor que cumpriu à risca o seu plano.

Acredito que possa parecer contra-intuitivo investir numa altura de crash, mas a verdade é que o investidor do Tipo 2 é aquele que apresenta, de longe, a melhor rentabilidade, com 11.25%! Como é que isto pode ser? Na verdade, a lógica é bastante simples. Ao aplicar sempre o mesmo valor em meses bons e maus, o preço médio a que o investidor do Tipo 2 acabou por investir foi substancialmente inferior àquele do Tipo 1.

Quando o mercado está em alta, aqueles 1000$ compram uma fatia mais pequena do bolo total que os mesmos 1000$ conseguem comprar quando o mercado está em baixa. Ou seja, se o mercado caísse 50% de um mês para o outro, os mesmos 1000$ equivaleriam ao dobro da posição que poderia ter sido adquirida antes da queda! Isto pressupõe que o mercado irá recuperar a cada nova queda, o que se tem verificado historicamente (mesmo levando em conta duas guerras mundiais, uma grande depressão, várias crises do petróleo, quedas de economias emergentes, etc.).

Em conclusão

Para reforçar a importância de investir com regularidade, mesmo que pouco, olhemos para o caso da bolha dot-com que rebentou em 2000 e cujo mercado só recuperou na totalidade em 2007 (mesmo antes da crise financeira, uff). Durante 7 anos, o mercado não voltou a renovar máximos, pelo que um investidor que tivesse investido no pico da bolha, não teria ganho nem perdido dinheiro durante esse período. No entanto, se durante esse mesmo período ele tivesse continuado a investir mensalmente, na altura em que o mercado tivesse recuperado, a rentabilidade apresentada seria de cerca de 3% ao ano. Mesmo levando em conta que 2001 e 2002 foram anos de contração!

Ninguém sabe se 2020 ou 2021 vão ser anos de expansão ou de contração. Existem muitos fatores que podem pôr em causa o equilibrio do mercado, como uma segunda fase da pandemia, ou a indefinição no pós-eleições dos Estados Unidos. Uma coisa é certa, esperar para ver pode sair caro. Numa certa perspetiva, uma queda dos mercados até o poderá beneficiar a prazo, já que é uma oportunidade para comprar a preços mais baixos. Ainda para mais, se começou recentemente ou pensa começar a investir agora, uma queda dos mercados relativamente cedo poderá ser benéfico: como numa fase contracionista o mesmo valor compra uma fatia maior do mercado, na fase expansionista que se seguirá o efeito de compounding irá atuar sobre um bolo relativamente maior.

Assim, disciplina é a chave! Se estiver disposto a investir seguinte uma estratégia passiva, assegure-se que tem algum dinheiro posto de parte para emergências, e que o seu horizonte de investimento é suficiente largo para esperar pelas eventuais recuperações. E acima de tudo, se decidir investir, faça uma alocação inteligente das suas poupanças e não as canalize na totalidade para os mercados financeiros, já que mesmo munido com todo o conhecimento para enfrentar situações de crash, nem todas os investidores têm estômago para enfrentar quedas acentuadas no valor da sua carteira de investimentos.