Fundos de acumulação – menos impostos, maior retorno

No primeiro artigo que escrevi para este blog, mencionei o facto de a generalidade dos investidores profissionais ser incapaz de apresentar um retorno médio superior ao do mercado. Existem outros fatores importantes para lá da má escolha de investimentos e que podem justificar uma pobre performance. Uma elevada rotação de ativos numa carteira de investimentos, por exemplo, fará com que os custos de transação se acumulem e abatam às mais-valias geradas.

Outro fator extremamente importante é, na venda de uma posição com lucro ou ao receber dividendos, gerarem-se ganhos de capitais que são alvos de taxação. Quando um fundo de investimento não otimiza a sua estratégia de investimento de forma a acautelar estes fatores, o investidor irá acabar por receber apenas uma pequena parte do valor gerado. Isto, porque a empresa original paga IRC sobre os seus resultados líquidos, antes de distribuir dividendos. Depois, o fundo de investimento que recebe esses dividendos não os poderá reaplicar/distribuir na totalidade, uma vez que tem também de pagar impostos sobre esses resultados. Por fim, o pouco que resta e chega ao investidor final, serão ganhos de capital também alvo de impostos.

Fundos de distribuição vs fundos de acumulação

De forma a otimizar a incidência fiscal sobre os seus investimentos, um investidor deve ter em atenção o tipo de fundo em que irá investir, relativamente à distribuição de resultados. Aqui, existem dois tipos de fundos: fundos de distribuição, e fundos de acumulação.

Como o próprio nome indica, os fundos de distribuição optam por distribuir periodicamente os resultados gerados pelos seus investidores, tipicamente a cada trimestre. Por exemplo, um fundo de investimento cuja estratégia se foque no investimento de obrigações ou bilhetes de tesouro, irá proceder à distribuição regular dos juros recebidos pelos seus investidores, reinvestindo apenas o principal no final da maturidade de cada obrigação.

De forma distinta, os fundos de acumulação não distribuem qualquer resultado em dinheiro pelos seus acionistas. Estes optam antes por reinvestir os seus juros ou dividendos em mais ações e/ou obrigações. Por exemplo, o S&P 500 é o índice que contém as 500 maiores empresas norte-americanas segundo a sua capitalização de mercado, e tem historicamente gerado um retorno em dividendos de cerca de 2% ao ano. Um fundo de acumulação que replique a sua performance, irá pegar nestes dividendos e investir em mais ações destas empresas, na devida proporção relativa ao peso que cada empresa tem no índice.

Como escolher entre estes dois tipos de fundos

É importante perceber que, ao investir em fundos de acumulação, o investidor estará apenas a adiar o pagamento de impostos sobre os seus ganhos de capital. Isto porque, não tendo de pagar impostos sobre os dividendos gerados (já que estes não foram distribuidos), a apreciação patrimonial do seu investimento implicará um imposto sobre um valor relativamente maior na altura da liquidação do investimento, dada a maior apreciação patrimonial até ali.

Desta forma, poderá estar a questionar-se acerca da vantagem de pagar um valor maior de impostos no momento da liquidação do investimento, ao invés de ir pagando, progressivamente, os ganhos sobre rendimento de capital com a regularidade com que vai recebendo os seus dividendos.

Rentabilidade de fundos de distribuição vs acumulação da sua data de criação até Agosto 2017 (Fonte: JustETF)

A diferença fundamental está no efeito dos juros compostos. Esta é uma das maiores maravilhas da matemática, que o deverá ajudar a conseguir um crescimento exponencial da sua carteira de investimentos. Num exemplo meramente ilustrativo, imaginemos um fundo de investimento de obrigações onde, para efeitos de simplificação, não ocorre qualquer tipo de apreciação de capital. Assim, a rentabilidade deste fundo deve-se exclusivamente ao recebimento periódico de juros. Assuma uma taxa de rentabilidade de 5% em cada período.

Progressão aritmética (verde) vs Progressão geométrica (preto)

Se este se tratar de um fundo de distribuição, isto significa que num investimento inicial de 1000 euros, o investidor irá receber os 5% anuais mais os 1000 euros do investimento inicial, para uma rentabilidade global de 50% no final do período de investimento (progressão aritmética). Caso se trate de um fundo de acumulação, o investidor não irá receber qualquer dividendo durante o período de investimento, sendo os 5% investidos anualmente. A cada ano, os 5% gerados irão incidir não sobre os 1000 euros do investimento inicial, mas sim sobre o valor patrimonial do fundo a cada ano – progressão geométrica. No final, o investidor irá receber um total de 1629 euros, numa rentabilidade total de 62.9%.

No mundo real, dada a existência de impostos sobre rendimentos de capital, o investidor não poderá investir os 5% anuais na íntegra – ao receber os dividendos, assumindo uma taxa de imposto de 30%, resta-lhe apenas 3.5% do valor original para reinvestir. Esta diferença de 1.5 pontos percentuais pode parecer insignificante, mas não é. Entre dois portfólios com um valor inicial de 1000 euros, ao final de 10 anos irá valer 1410 euros se crescer a 3.5% ao ano, face aos 1629 euros que valeria com uma taxa de 5%. Se olharmos para um horizonte maior, digamos 20 anos, então a diferença é mais acentuada: 1990 euros a 3.5% vs 2653 euros a 5%.

Impacto da diferença de 1.5 pontos percentuais ao ano para diferentes horizontes temporais

Ao escolher um fundo de acumulação, não haverá nenhuma distribuição de dividendos, pelo que não haverá lugar ao pagamento de impostos em cada um dos períodos anuais, até à liquidação do investimento. Esta poupança fiscal traduzir-se-à numa taxa de rentabilidade efetiva maior, levando a um crescimento exponencial mais acentuado do valor do investimento. Ainda que no momento da liquidação o imposto sobre mais-valias incida num valor superior, o remanescente será sempre maior, dada a componente adicional decorrente desta poupança fiscal, que resultou num efeito de crescimento composto do capital investido.

A melhor opção

Na hora de tomar uma decisão, é importante perceber qual é o objetivo no momento de escolha de um fundo. Alguns investidores, pela sua idade ou perfil mais conservador, preferem investir com a ideia de tirar um rendimento complementar ao seu salário ou reforma – aqui, fará sentido escolher um fundo de distribuição, de forma a beneficiar dos dividendos regulares.

Para investidores que beneficiam de um horizonte temporal de investimento suficientemente largo e não necessitam destes dividendos para complementar os seus rendimentos, então os fundos de acumulação serão a melhor alternativa por serem mais eficientes em termos fiscais. Mesmo que, por algum motivo, venham eventualmente a necessitar desses influxos de liquidez para complementar os seus rendimentos, não será necessário vender a sua posição e reinvestir num fundo de distribuição (o que seria terrivelmente ineficiente). Aqui, bastaria simplesmente vender uma pequena parte do seu investimento na proporção e com a regularidade necessária – caso as taxas de impostos sobre rendimentos de capital (dividendos) e ganhos sobre mais-valias (apreciação patrimonial) sejam semelhantes, receber um dividendo de 5% ou vender 5% da posição terá praticamente o mesmo resultado.

Descrição do CSPX da iShares, fundo de acumulação que replica performance do índice S&P 500

Para concluir, poderá identificar se um fundo de investimento é de acumulação ou distribuição no seu nome ou algures no seu prospeto. Tipicamente, a descrição do fundo terá uma secção onde dá conta da Distribution Policy/Use of income.

Disclaimer: este artigo tem apenas o propósito de diferenciar estes dois tipos de fundos de investimento, relativamente ao uso dos seus influxos de liquidez, e a importância que este fator poderá ter a prazo na rentabilidade dos seus investimentos. Antes de tomar uma decisão, recomendo que tenha em conta fatores importantes como a sua residência fiscal (caso resida noutro país), o domicílio fiscal do respetivo fundo (cujo contexto fiscal impacta a capacidade de reinvestimento) e, também, o seu próprio contexto fiscal (englobamento dos rendimentos de capitais poderá ser mais vantajoso do que aplicar uma taxa autónoma sobre os ganhos). Se necessário, fale com um especialista.