Crescimento e dividendos no mercado português – Novabase

Ao longos dos vários artigos que fui escrevendo neste blog, procurei apresentar alguns príncipios fundamentais que devem orientar aqueles que procuram dar os primeiros passos neste mundos dos investimentos na bolsa. A estratégia de apostar em ETFs bem-diversificado em vários mercados e vários setores da economia, com reforços regulares, é aquela que, historicamente, tem trazido melhor rentabilidade aos investidores no longo-prazo (apesar de, claro, não existirem garantias nos mercados financeiros).

De forma a evitar uma concentração excessiva numa única região, com todos os riscos que isso acarreta, sou apologista de sacrificar alguma rentabilidade esperada por uma maior exposição a outros mercados, nomeadamente ao europeu (mais maduro) e a economias emergentes (maior potencial de crescimento).

As 10 maiores empresas no PSI-20, por capitalização bolsista

Recentemente, tomei a decisão de aumentar a minha exposição ao mercado português (PSI), como forma de diversificar a minha carteira de investimentos. No artigo anterior, referi que o PSI-20 é um mercado periférico e que apresenta uma rentabilidade histórica recente (20 anos) muito aquém da obtida na maioria dos seus principais pares europeus. No entanto, dada a reduzida dimensão da maioria das empresas e falta de cobertura de analistas internacionais, é com regularidade que surgem bons negócios que podem, durante algum tempo, escapar às garras dos principais investidores institucionais.

O meu objetivo será acompanhar e analisar o mercado em permanência, e identificar as oportunidades com melhor rentabilidade esperada. A ideia não será recomendar empresas ou estratégias em particular, mas sim desenvolver um pouco a lógica por trás da minha seleção de investimentos. Dessa forma, poderá ser útil usar as minhas análises como ponto de partida para a sua própria pesquisa do mercado, seja o português ou qualquer outro.

Filosofia de investimento e primeira posição

Antes de mais, é importante chamar a atenção para o facto de existirem dezenas e dezenas de filosofias de investimento e, até hoje, não é possível afirmar que uma é superior a todas as outras. Dada a natureza cíclica da economia, dos mercados e até dos avanços tecnológicos, o mesmo tipo de abordagem aos mercados pode trazer resultados distintos em diferentes períodos no tempo. Na última década, têm sido as empresas de Big Tech a dominar os mercados e a apresentar resultados superiores. Noutras alturas, apostar em empresas com histórico sólido de distribuição de dividendos foi a melhor a aposta. E existem ainda muitas outras que não vale a pena entrar em detalhe.

Tipicamente, é boa ideia escolher uma filosofia de investimento que se adapte ao nosso perfil de risco e àquilo que é o objetivo da nossa carteira. Dado o meu perfil analítico, tenho tendência a evitar apostas especulativas, preferindo guiar-me pelos números. Assim, acabo muitas vezes por preferir empresas com uma situação financeira sólida e no mercado a um preço justo face à real capacidade em gerar fluxos financeiros positivos para os acionistas. Em contrapartida, é muito provável que acabe por deixar passar oportunidades de investir em empresas com grande margem de progressão (ainda que incerta), com um preço condizente com o seu potencial.

Novabase SGPS

Definida então qual a minha filosofia de investimento, lancei-me em busca de bons negócios no PSI-20. Como referido em artigos anteriores, o mercado português é composto acima de tudo por empresas maduras, com menos perspetivas de crescimento futuro e, portanto, orientadas para a distribuição de dividendos como forma de remunerar os seus acionistas. No entanto, uma empresa que me tem chamado à atenção nos últimos meses é a Novabase. Esta é, muito provavelmente, a oportunidade mais atrativa do mercado neste momento.

A Novabase, fundada em 1989 e lançada em bolsa em 2020, é a única empresa tecnológica do PSI-20 atualmente. Esta empresa atua em dois segmentos distintos: o segmento Value, que se divide num braço de investimento em start-ups (Venture Capital) e em recrutamento/outsourcing de recursos humanos na área das tecnologias de informação; e o segmento Next-Gen, orientado para o desenvolvimento de soluções (consultoria e software) para os setores financeiro e de telecomunicações.

Esta empresa tem uma forte presença internacional, com mais de metade do seu volume de negócio a chegar da Europa e Médio Oriente. A Novabase entrou para o PSI-20 em março, para substituir a F.Ramada. No entanto, a última década tem sido marcada por constantes entradas e saídas do PSI-20, dada alguma indefinição provocada pela exposição a alguns clientes problemáticos: primeiro, a crise da dívida pública que obrigou o Governo português, até então um dos clientes principais, a cortar com o investimento; depois, a queda dos preços de petróleo que levaram à queda da economia angolana, tendo tido forte impacto nas operações da empresa em África.

Espaço para crescer

Dadas estas dificuldades, a Novabase viu-se na necessidade de reestruturar o seu negócio. Como tal, na última década o seu volume de negócios contraiu para cerca de metade, muito por força do desinvestimento de operações não estratégicas, como a venda à Vinci do seu negócio GTE (Governo, Transportes e Energia). A ideia da empresa será dar prioridade ao segmento Next Gen, ao apostar na Inteligência Artifical, Internet das Coisas e na Cloud, através do crescimento orgânico das suas operações e também através de pequenas aquisições de outras empresas da área.

O plano de reestruturação, apresentado em 2019, previa a duplicação da faturação deste segmento (o que se traduz numa taxa de crescimento na ordem dos 16% anuais) e a alienação das restantes operações não-estratégicas, cujo valor da venda serviria em parte para reforçar a capacidade de investimento da empresa e, também, para remunerar os acionistas. Com a valorização na cotação de mercado e a distribuição de 0.65 euros em dividendos, os acionistas registaram uma rentabilidade de 60% no ano de 2019, à qual incide uma valorização adicional de cerca de 20% desde o início de 2020.

Um preço acessível?

Tendo em conta a ambição do novo plano estratégico da empresa, estamos então perante uma empresa com boas perspetivas de crescimento. Resta agora perceber se as ações estão a ser vendidas a preços acessíveis, ou se as perspetivas otimistas já se fazem refletir no preço.

A capitalização bolsista da empresa era de cerca de 103 milhões de euros no final da semana passada (21 de Agosto), com cada ação a valer 3.30 euros. Curiosamente, no final de Junho, tinham uma posição em Net Cash (dinheiro em caixa, deduzido da dívida financeira) de cerca de 50.7M. Isto significa que os investidores avaliam as operações da empresa em metade do seu valor de mercado (equivalente a comprar a empresa por 103M e usar os 50.7M para abater esse valor). Esta não é uma característica comum na generalidade das empresas (longe disso) e, quase sempre, estas empresas optam por distribuir este dinheiro pelos investidores (traduzindo-se num retorno imediato de 50% ao preço atual) ou investir em R&D e aquisições, o que fortaleceria a capacidade da empresa em aumentar lucros futuros. Para já, num contexto de incerteza dada a pandemia, a empresa está numa posição única para navegar a crise e fazer face a potenciais quebras de receita, sem ter necessidade de se endividar.

  • Indra Sistemas (Espanha) – 7.55x
  • Capgemini (França) – 9.06x
  • Alten (França) – 12.39x
  • Novabase – 4.69x

Uma forma comum de perceber se uma empresa está subvalorizada ou sobrevalorizada, é através da comparação com empresas concorrentes na mesma indústria (chamado Peer Group). Existem diferentes indicadores usados para o efeito, sendo o PE (Price to Earnings) o mais comum. Este indicador, calculado pela divisão ‘Capitalização bolsista / Resultado líquido’ mede o preço a pagar por cada euro de lucro gerado. Como o resultado líquido de 2019 e 2020 reflete ganhos decorrentes da venda de unidades de negócio (sendo, portanto, ganhos não recorrentes), a melhor alternativa passa por comparar o valor de mercado (mais a sua dívida financeira líquida) e os resultados operacionais registados, calculando o EV/EBITDA.

A Novabase tem uma capitalização bolsista de 103M de euros, ao que se deduzem 50.7M (dívida líquida negativa), e se divide o remanescente pelos cerca de 11.2M de EBITDA dos últimos 12 meses para os quais temos dados públicos (último semestre de 2019 e primeiro de 2020). Neste rácio, um valor relativamente mais baixo pressupõe que a empresa é transacionada a preços comparativamente mais atrativos. Aqui, a Novabase destaca-se claramente dos seus concorrentes principais.

Evolução favorável do volume de negócios

Com base no contexto atual, vimos que a Novabase está a ser transacionada a preços favoráveis no mercado (atualmente, a 3.30 euros/ação). Olhemos agora para a evolução financeira desde que foi apresentado o plano de restruturação e metas financeiras para o ano de 2023. Este antecipava um crescimento significativo do segmento Next Gen e uma melhoria das margens operacionais.

Fonte: Relatório e Contas Anual de 2019
Fonte: Resultados do primeiro semestre de 2020

Analisando os resultados anuais de 2019 face a 2018, e a evolução registada no primeiro semestre de 2020, a empresa tem evoluído de forma bastante positiva. O volume de negócios cresceu 9.4% em 2019, e 14% em 2020 face ao mesmo período do ano anterior. Em termos de margem operacional, 2019 registou uma melhoria de 1.9 pontos percentuais, e no primeiro semestre de 2020 a tendência acentuou-se, crescendo mais 2 pontos percentuais face ao mesmo período do ano anterior. É importante relembrar que estes resultados foram conseguidos numa altura de pandemia, o que reflete a robustez do negócio e, espera-se, continue a verificar-se na eventualidade de haver uma segunda vaga de propagação do vírus.

Tendo em conta os resultados financeiros atuais e a evolução em linha com o novo plano estratégico, optei por complementar a minha análise com uma avaliação quantitativa do valor do negócio. Para isso, usei o método DCF (Discounted Cash-Flows), que atualiza os fluxos financeiros futuros da empresa para o momento presente, e compara esse valor com o valor de mercado da empresa mais a sua dívida financeira líquida.

É importante, antes de mais, chamar a atenção para o facto de que as conclusões deste tipo de métodos de avaliação não são mais do que estimativas. Dada a incerteza sobre a evolução futura dos fluxos financeiros da empresa, têm de ser assumidos uma série de pressupostos que podem não se verificar. Como tal, apesar de ter chegado a um valor de 8.09 euros por ação, optei por aplicar uma margem de segurança de 30%, de forma a acautelar à partida potenciais desvios face ao comportamento esperado. Assim, irei usar os 5.66 euros por ação como preço-alvo, o que se traduz num desconto atual na ordem dos 72%. Esta estimativa contrasta com os 5.15 e 4.10 euros propostos por analistas de duas instituições bancárias distintas. Esses preços-alvo foram sugeridos em Maio, ainda antes de serem conhecidos os resultados positivos do primeiro semestre de 2020, pelo que é possível que venham a ser revistos em alta num futuro próximo.

Para concluir, adquiri então 160 ações a 3.28 euros no dia 20 de Agosto. A minha intenção é ir reforçando a minha posição gradualmente, aproveitando a volatilidade do preço para eventualmente comprar um pouco mais barato, e aguardar por mais notícias relativamente à evolução do negócio e da pandemia. Entretanto, irei prosseguir com a minha pesquisa de mercado, em busca de boas oportunidades de negócio.