A fórmula mágica do investimento


10% ao ano é coisa de boomer

Com o mercado acionista em forte expansão, multiplicam-se as plataformas que gamificam os investimentos em ações e derivados financeiros. E, claro, com estas proliferam também os canais de Youtube e posts no Reddit, com análises e recomendações para investimentos com potencial para fazer crescer 2x, 5x, 10x e, até, 20x o valor investido! Logicamente, isto tem aguçado o interesse de cada vez mais novos investidores, que começam a dar os primeiros passos no mercado com a expectativa de grandes (e rápidos) retornos!

Em contrapartida, investir a longo-prazo em ETFs ou empresas mais maduras de forma a conseguir algo como 5-10% de rentabilidade anual, acaba por se tornar relativamente pouco atrativo. Conhecendo apenas a fase da euforia, investir de forma impaciente e com uma ideia pobre sobre o que se está a fazer irá levar, inevitavelmente, a resultados muito maus e até perda de capital. A minha intenção aqui passa por ilustrar um par de princípios de forma a incentivar a adoção de bons hábitos de investimento, e criar condições para tirar partido do inevitável bust, que certamente irá assustar muitos destes novos investidores.

A importância dos first principles

Diagnosticar o mercado atual é fácil! As ações em geral, e as tecnológicas da moda em particular são, cada vez mais, vistas como bilhetes da lotaria e não tanto como aquilo que elas realmente são. Uma ação é, simplesmente, um instrumento que garante ao seu titular parte dos lucros futuros de uma empresa. Assim, os bons investimentos serão aqueles cujo valor despendido se revele inferior ao valor atualizado dos lucros distribuídos pelos acionistas daquela empresa.

No entanto, não creio que seja a falta de vontade que leva estes novos investidores a não optar por uma análise fundamental das oportunidades mais interessantes. Parece-me sim que o volume de informação e a quantidade de conhecimento técnico percepcionado como necessário à avaliação de empresas seja o maior obstáculo. Basta olhar para o número de páginas de um qualquer Relatório e Contas (ou 10K) ou ouvir falar em siglas como DCF (Discounted Cash-Flow), WACC (Weighted Average Cost of Capital) ou EV (Enterprise Value) para se sentir imediatamente perdido.

É crucial então encontrar um ponto de partida, uns first principles como defende o Elon Musk, que pudessem ser imediatamente interiorizados e aplicados de forma a permitir a análise e a fundamentação de oportunidades de investimento, funcionando também como alicerce a todo o conhecimento adicional que venha sendo adquirido no futuro. Como também já tive essa necessidade no passado, creio ter uma resposta para este problema! Não é só uma resposta, é uma autêntica fórmula mágica!


O pequeno livro que bate o mercado

The little book that beats the market, um livro escrito pelo lendário investidor Joel Greenblatt, proporcionou o meu momento Eureka! durante uma viagem de autocarro, no meio de tantas outras. Com cerca de 170 páginas e escrito com termos suficientemente simples para serem entendidos pelo seu filho de 11 anos, este livro propõe-se a convencer o leitor de que é possível obter retornos acima da média seguindo alguns princípios cruciais de investimento. Em conjunto, estes princípios dão corpo a um método (a tal fórmula mágica) que, aplicado de forma consistente, acabará por trazer resultados extremamente positivos (30.8% entre 1988 e 2004, no período analisado).



Antes de abordar estes princípios, é importante compreender que o mercado de ações está em constante evolução e que, desde a altura em que este livro foi escrito, a abordagem simplista do autor poderá já ter esgotado algum do seu potencial (uma pesquisa na internet permitirá encontrar simulações deste método num passado mais recente). Adicionalmente, não é o método que o autor propõe que retém o maior valor no livro, mas sim os seus princípios base. Estes continuam a ser totalmente válidos, e deverão sustentar todas e quaisquer análises de investimento que faça daqui para a frente!


Investir a preços razoáveis…

A procura de bons investimentos deve passar, desde logo, por encontrar negócios transacionados a preços razoáveis ou até de forma subvalorizada pelo mercado. A cotação de empresas atrativas e sólidas como, por exemplo, a Apple ou a Amazon, pode flutuar 30%, 40% ou até mais de 50% num único ano! A natureza altamente volátil das ações não se deve tanto ao valor intrínseco do negócio destas empresas, que será mais ou menos estável ao longo do tempo, mas sim ao facto de o mercado tipicamente exagerar face às notícias que vão saindo. De forma cíclica, quando as notícias são menos positivas, o preço cai de forma abrupta, e vice-versa quando saem boas notícias!

A ideia-chave passa então por tirar partido destas flutuações, e começar uma posição numa empresa quando o contexto é percebido como sendo menos favorável. A forma mais direta de detectar quais as empresas mais baratas a cada momento passa por comparar entre elas o rácio PE (Price-to-Earnings). O cálculo faz-se através da divisão entre os lucros por ação e o preço a que esta está cotada. Imaginemos uma empresa com 1 milhão de ações cotadas a 1 euro, e com lucros no ano de 100 mil euros. Ora, estes lucros equivalem a 10 cêntimos por ação, o que equivale a um PE de 10x (0.1/1). Um PE relativamente mais baixo implica que o mesmo valor investido poderá “comprar” um valor mais alto de lucros.

… em empresas de qualidade!

No entanto, comprar barato pode sair caro! Ao olhar apenas para o preço, poderemos estar a considerar empresas cujo negócio tenha já atravessado melhores dias, e caminhe a passos largos para a liquidação (daí que o mercado possa atribuir um PE baixo). É então essencial combinar esta métrica com uma outra que permita identificar empresas com fontes de receita sólidas e com margem de crescimento. 

Tendo isso em consideração, o autor propõe olhar para a eficiência da  empresa no uso dos seus recursos (ativo e capital) para tirar rentabilidade. A métrica mais usada para este efeito é o ROC (ou ROCE, Return-on-Capital-Employed), que olha simultaneamente para as receitas operacionais da empresa e os seus recursos produtivos. Ao dividir as receitas operacionais (EBITDA) pelo capital investido (Ativo Total – Passivo Corrente), obtemos um rácio de eficiência que será tanto mais alto, quanto mais eficiente for a empresa na hora de investir os seus recursos. Este rácio permite, desde logo, relativizar a dimensão das empresas e deixar aparente que gerar maiores receitas em termos absolutos poderá não ser equivalente a ter um negócio mais apetecível!

Uma das grandes vantagens de usar indicadores tão simples como o PE ou o ROC é que nem necessita de abrir a folha de cálculo ou o Relatório e Contas da empresa em questão, uma vez que estes estão considerados na maioria dos stock screeners como a Yahoo Finance, TradingView ou Finviz. Com o tempo, e à medida que for aprimorando os conhecimentos financeiros, poderá complementar as suas análise com outros rácios semelhantes (Forward PE ou ROIC) ou rácios que incidam sobre outras dimensões da empresa, como o da dívida financeira (Interest-Coverage que analisa o peso dos juros sobre os lucros) ou a liquidez da empresa (Quick Ratio que mede a proporção de ativos líquidos sobre o passivo liquido da empresa).


Em conclusão!

Adquirir bons negócios a preços vantajosos deverá ser a prioridade número 1 em qualquer tese de investimento. Investir em preços vantajosos garante um downside limitado, uma vez que a empresa já se encontra subvalorizada pelo mercado, e investir em bons negócios assegura que, independentemente das flutuações do mercado, a empresa é capaz de alocar os seus recursos de forma a garantir o crescimento do seu negócio e das suas receitas. Um exemplo paradigmático de um bom investimento seguindo estes princípios teria sido a Apple até finais de 2018:


Apple – Macrotrends

Transacionada com um PE de cerca de 12x (mais condizente com empresas maduras e em segmentos com pouco potencial de crescimento), registou anos a fio um retorno anual sob os seus investimentos de cerca de 30%. O mercado demorou o seu tempo a perceber o enorme potencial desta empresa em gerar novas fontes de receita mas, quando a altura chegou, a cotação da empresa subiu em flecha, chegando a ser a empresa mais valiosa do mundo (retorno de +260% desde o início de 2019). Esta é a prova de que o mercado nem sempre é eficiente mas, devagarinho, sempre dará razão aos números. A matemática não engana.